O mapa da corrida: como ler as notícias
Aula 19 de 23 do curso “Quântica”. Grátis, com animações e teste.
Quem aposta em quê
Vamos pôr o nível todo num mapa. Supercondutores: Google, IBM, Rigetti e a chinesa USTC. Íons: Quantinuum e IonQ. Átomos neutros: QuEra, Atom Computing e a francesa Pasqal. Fótons: PsiQuantum e Xanadu. Spins em silício: Diraq, Quantum Motion, SQC. Topologia: Microsoft. Ainda não há vencedor, e isso é normal: nos anos 1950 também se discutia do que fazer transistores. O que importa é que cada tecnologia tem seu ponto fraco, e agora você sabe qual.
A China na corrida
A China não fica para trás. Em março de 2025 a equipe da USTC publicou na Physical Review Letters os resultados do chip Zuchongzhi 3.0, com 105 qubits supercondutores. Usando 83 deles, resolveu em segundos uma tarefa de circuitos aleatórios que, pela estimativa deles, levaria cerca de 6,4 bilhões de anos no supercomputador Frontier. Parece enorme, mas é o mesmo gênero do Google em 2019: um recorde numa tarefa feita para ser difícil para o clássico. Não faz cálculos úteis. A China também é forte em comunicação quântica e tem as máquinas fotônicas Jiuzhang.
Números que valem mais que os qubits
A manchete “1000 qubits!” sozinha quase não diz nada. Lembre do Condor da IBM: 1121 qubits em 2023, e depois a própria IBM passou para chips menores e mais precisos. Olhe quatro coisas. A fidelidade das portas de dois qubits: 99,9% é um erro em mil. Quantos qubits são lógicos. Se o sistema opera abaixo do limiar, ou seja, melhora quando o código cresce. E quantas operações seguidas ele aguenta: milhares, milhões ou bilhões. Esses números separam progresso de marketing.
Recordes em tarefas inúteis
Por que encarar com calma as “supremacias” barulhentas? Lembre do Sycamore em 2019: 200 segundos contra “10 mil anos” num supercomputador. Já em 2022 pesquisadores com um novo algoritmo clássico resolveram a mesma tarefa em cerca de 15 horas com 512 placas de vídeo comuns. O clássico também melhora, e recordes de circuitos aleatórios são “comidos” com frequência. Por isso a meta real do setor são tarefas com resposta útil e verificável. O Quantum Echoes do Google em 2025 está mais perto disso: o resultado pode ser conferido com um experimento real.
Quanto dinheiro tem aqui
Agora, um olhar sóbrio sobre o dinheiro. Segundo a McKinsey (relatório de 2025), as empresas de computação quântica faturaram juntas só US$ 650–750 milhões em 2024. É menos que a receita de uma empresa de TI média. Já o investimento em startups quânticas cresceu 50% em um ano, para quase US$ 2 bilhões. A previsão para o mercado de computação quântica em 2035 vai de US$ 28 a 72 bilhões. Repare na faixa: o número de cima é 2,5 vezes o de baixo. É assim que fica um mercado onde ainda há mais expectativa do que vendas.
Checklist para qualquer manchete
O resultado do nível é uma ferramenta para toda semana. Viu uma manchete quântica? Faça cinco perguntas. Qubits físicos ou lógicos? Qual fidelidade e quantas operações? Tarefa útil ou recorde de benchmark? Revisado por pares ou só press release com preprint? Já feito ou só no roteiro? Teste com o Majorana 2: preprint, sem revisão, ainda sem qubits funcionando, então interessante, mas cedo. Willow abaixo do limiar: publicado na Nature, medições detalhadas, revisão aprovada, então é sério.
Teste-se
- Uma empresa anuncia “1000 qubits!”. O que perguntar primeiro?
Resposta certa: Qual a fidelidade das portas e quantos são lógicos. O número de qubits sem fidelidade nem qubits lógicos quase não significa nada: o Condor, com 1121, não foi um avanço. - Por que um recorde em circuitos aleatórios não prova que o computador é útil?
Resposta certa: A tarefa é escolhida difícil para o clássico, mas não tem uso, e o clássico às vezes alcança. Circuitos aleatórios são um teste justo de potência, não trabalho útil. O Sycamore foi “alcançado” em 15 horas com 512 GPUs. - Que sinal indica a notícia mais confiável?
Resposta certa: Um artigo revisado com dados que outros confirmaram. Revisão e replicação são o melhor filtro. O Willow abaixo do limiar passou pela revisão da Nature; o Majorana 2 ainda não.