O que funciona e o que irrita
Aula 20 de 22 do curso “Vídeo com IA sem flop”. Grátis, com animações e teste.
Dois vídeos, duas reações
O último nível é sobre publicar um vídeo sem onda de hate, remoção ou banimento. Vamos começar pela reação das pessoas. Em novembro de 2024 a Coca-Cola lançou um remake com IA do seu lendário comercial de Natal com os caminhões, que passava desde 1995. Foi feito com modelos generativos e se apresentava como uma gravação normal. Nas redes logo o chamaram de sem alma e estranho. Já o anúncio da Kalshi do nível anterior, também todo em IA, foi discutido como um marco. Os dois são IA, e a reação foi oposta. Vamos entender por quê.
O vale da estranheza
Já em 1970 o roboticista japonês Masahiro Mori descreveu o “vale da estranheza”. Quanto mais um robô se parece com um humano, mais gostamos dele, mas só até certo ponto. Quando é quase humano, mas algo está errado, a simpatia despenca e vira incômodo. Um personagem de desenho parece fofo, uma pessoa real parece normal, mas um quase-humano de olhos congelados e dedos estranhos assusta. Vídeo com IA cai muitas vezes exatamente nesse buraco, principalmente quando tenta parecer gravação real. Foi aí que o anúncio da Coca-Cola caiu: queria ser real, e o olho pegava pequenas falhas.
O que irrita
Histórias assim formam uma lista do que o público não perdoa em anúncios com IA. Primeiro: IA fingindo ser gravação real. Quando o truque é descoberto, as pessoas não ficam bravas com a tecnologia, e sim por terem sido enganadas. Segundo: emoções falsas sobre um tema querido, como um feriado ou a família. Terceiro: “depoimentos de clientes” inventados. Não é só cringe: nos EUA, uma regra da FTC em vigor desde outubro de 2024 proíbe expressamente avaliações falsas, inclusive as geradas por IA. Quarto: rostos e mãos no vale da estranheza. Você já sabe checar tudo isso, e isso afeta diretamente a reputação da marca.
O que funciona
Agora o outro lado. A Kalshi funcionou não apesar da IA, e sim junto com ela: o anúncio era absurdo de propósito, e a estranheza do modelo virou parte da piada. Regra um: humor e absurdo, em que a estranheza da IA joga a seu favor. Regra dois: planos impossíveis. Um tênis correndo pela parede de um arranha-céu não dá para filmar; o público sabe que é IA e curte. Regra três: mostrar o processo. As pessoas adoram ver como foi feito o que as surpreendeu. Regra quatro: um rótulo honesto de “feito com IA”. Ele responde “estão nos enganando?” antes que alguém pergunte.
O processo também é conteúdo
Todo projeto da Mira agora tem dois vídeos. O primeiro é o anúncio, 15 segundos de resultado. O segundo é o making of: rascunhos, prompts, takes ruins com dedos a mais e como ela consertou. O material já está nas pastas /drafts e /prompts do nível anterior, então o segundo vídeo sai quase de graça. O autor do anúncio da Kalshi fez igual: publicou um passo a passo do processo, e é dali que sabemos das 300–400 gerações e dos prompts do Gemini. O making of gera confiança: o público vê uma pessoa e o trabalho dela por trás do vídeo, não um único botão.
Comentários são um teste grátis
Ninguém acerta o público de primeira. Por isso, depois de publicar, a Mira faz um ciclo simples. Nas primeiras horas lê os comentários, principalmente os que chamam o vídeo de cringe ou “IA óbvia”. Anota o que exatamente incomodou: olhos, mãos, voz, pele lisa demais ou a própria ideia. E conserta no próximo vídeo, em vez de discutir nos comentários. Em cinco ou seis vídeos esse ciclo ensina mais que qualquer curso, incluindo este. Só lembre: comentários mostram a reação dos mais barulhentos, então olhe junto com os números de retenção.
As regras da marca da Mira
De toda a aula a Mira tirou quatro regras da marca e escreveu no briefing do agente para valerem em todo vídeo. Estilo: IA marcante e um pouco de absurdo, sem fingir que a imagem é gravação. Rostos: só a Mira e personagens criados do zero. Emoções: nada de depoimentos inventados nem “histórias reais de clientes”. Rótulo: sempre “feito com IA”. A última regra não é só reputação. Na Europa e nas grandes plataformas, rotular IA agora é obrigação, e sem isso o vídeo pode ser removido. É o assunto da próxima aula.
Teste-se
- Uma marca quer um remake com IA do seu comercial antigo mais amado, “parecendo gravação real”. Qual o principal risco?
Resposta certa: O vale da estranheza e a sensação de troca em algo que as pessoas amam. Uma imagem quase real sobre um tema querido irrita, como com a Coca-Cola em 2024. - Sugerem à Mira colocar no anúncio “depoimentos de clientes felizes” feitos com IA. O que ela responde?
Resposta certa: Não: engana o público, e nos EUA uma regra da FTC proíbe isso. Um depoimento inventado é uma mentira sobre o produto. Fere a confiança e a lei. - Qual ideia de vídeo aproveita melhor os pontos fortes da IA?
Resposta certa: Um tênis corre pela parede de um arranha-céu enquanto a cidade se dobra. Um plano impossível não pode ser filmado, então o público vê valor, não falsificação. - Muitos comentários dizem “olhos de boneca”. O que ela faz?
Resposta certa: Anotar e consertar o olhar no próximo: piscadas e microgestos. Comentários são um teste grátis. Uma queixa repetida mostra o que consertar.